Nas ondas de “Corpo Elétrico”

Por Cecília Moraes participante do núcleo de psicose e saúde mental

Como atividade preparatória para as XXV Jornadas Clínicas, tivemos a exibição do filme “Corpo Elétrico”, seguida por um debate pulsante, que contou com a presença do diretor, Marcelo Caetano, de Marcus André Vieira e de Paulo Vidal, em mesa coordenada por Andréa Reis.

Como dar notícias desse encontro? Escolhi fazê-lo partindo do efeito que teve em mim o filme.

“Corpo elétrico” me comoveu bastante. Num momento em que se observa, cada vez mais, a segregação como modo proeminente de se lidar com a alteridade, com aquilo que resta de inassimilável no Outro, um filme que traz a convivência entre as mais diferentes pessoas sem que apareçam grandes conflitos, nem violência, comove. E o faz ainda mais porquanto o ambiente que as reúnem é um lugar que se imaginaria, em princípio, pouco fértil às trocas: uma fábrica de roupas, onde operários passam longas horas do seu dia debruçados sobre máquinas realizando movimentos repetitivos e solitários. No entanto, o que se assiste na tela desconstrói essa idéia. Não só as trocas ocorrem (como poderia ser diferente?), como ainda se dão muito harmonicamente entre os diversos personagens. Gays, heteros, mulheres, homens, negros, brancos, um evangélico, um estrangeiro… todos convivem sem entrar em colisão.

O espectador, como foi dito no debate, fica à espera de que algo irá destruir essa harmonia, aniquilá-la. Mas mesmo quando há uma fagulha de desentendimento, logo ela se dissipa, e a harmonia é reestabelecida.

O filme é só amor. Amor que flui por todos os lados e que desagua sem barreiras.

Não seria uma utopia? – algum comentário trouxe em seu bojo a questão. O diretor prefere falar em “heterotopia”, uma noção de Foucault, que ele resume como sendo um espaço heterogêneo dentro do real (aqui entendido como realidade), mas que é ao mesmo tempo uma fissura no real. Na perspectiva de Marcelo Caetano, trata-se de uma realidade improvável, porém não impossível.

Para a psicanálise, no entanto, não há como se pensar relações sem conflitos. A inexistência da relação sexual para o ser falante implica um desencaixe fundamental, um descompasso inerente às relações humanas. O mal-entendido está no berço da linguagem. E, se por um lado isso traz muitas perturbações no trato com o outro, é também o que nos permite continuar dirigindo a palavra ao Outro. Ou seja, é justamente o que nos permite fazer laço social, estar no discurso.

Os personagens do filme não estão fora do laço social. Mas talvez eles retratem um pouco a forma como o sujeito contemporâneo se engaja nas relações sociais hoje. São laços mais efêmeros, circunstanciais, líquidos. O que não quer dizer, porém, que não possam ser intensos. Elias, personagem central do filme, representa bem esse sujeito. O diretor disse que se inspirou no observador do poema de Walt Whitman, “Eu canto o corpo elétrico”, para este personagem. Assim como o observador, refletiu Marcelo Caetano, Elias vive a margem e transita por todos os lugares. Ele não está em lugar nenhum, concluiu. Talvez por isso Elias não consiga dizer onde se vê em 5 anos, quando o perguntam. Ele parece viver o presente sem muitos vínculos com o passado (só com um ex-namorado, que parece fazer uma função importante para ele) e sem pensar muito no futuro. Essa quase deriva, porém, não o angustia. Ou, pelo menos, não vemos uma angustia ali evidente. Tampouco grandes dúvidas ou dilemas.

No debate, Marcos André lembrou que, hoje, acontece de nos depararmos na clínica com sujeitos que, tal como Elias, não apresentam grandes angústias, ou grandes dilemas. Ainda assim, alguém só chega no consultório de um psicanalista quando existe algum tipo de mal-estar.  Se não é mais tanto a dúvida ou o dilema aquilo que leva os sujeitos a buscarem uma análise, o que é então? Como, em tempos de amores líquidos, o mal-estar se apresenta? E, como é possível pensarmos as ressonâncias disso para a transferência? É no singular do caso a caso que poderemos responder a estas questões e, certamente, as XXV Jornadas Clinicas, cujo tema foi Loucuras e Amores em Psicanálise, tiveram muito a nos dizer sobre isso.

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