Comentário sobre o encontro aberto organizado pelo Núcleo de Psicanálise e Direito: Ecos da guerra

No dia 11 de agosto último tivemos a oportunidade de ouvir, em encontro aberto do Núcleo de Psicanálise e Direito, as contribuições de Romildo do Rêgo Barros sobre as elaborações de Freud e Lacan sobre os acontecimentos das duas grandes guerras que abalaram o século XX e as consequências que a psicanálise pôde extrair desses eventos. Contamos também com a presença de nosso colega de Minas, Antonio Teixeira, que foi o debatedor do evento e trouxe um importante viés histórico e filosófico sobre a questão da violência presente na lei e no Direito, entre outras contribuições fundamentais.

Cristina Duba

Anúncios

Sobre a Jornada de Encerramento da Turma 2014 – parte 1

Comentários de Mayara Alvarenga Ferra (Turma 2016) sobre o trabalho “Isso ainda é psicanálise?”

Pude participar somente durante o período da manhã da Jornada de Encerramento da turma de 2014. Gostei muito dos trabalhos e dos comentários dos debatedores das mesas. Em específico o trabalho da Andrea V. Marcolan, “Isso ainda é psicanálise? – Sobre a formação do analista e o trabalho em instituição”, justamente pelo comentário do debatedor Rodrigo Lyra – a partir da citação de Freud “A atividade psicanalítica é árdua e exigente; não pode ser manejada como um par de óculos que se põe para ler e se tira para sair a caminhar” – de que a psicanálise não é uma ferramenta, e sim um discurso, o qual o analista é tomado pela psicanálise.

Essa questão me tocou, pois é o que venho encontrando na minha pós-graduação em psicologia hospitalar em que ouço muito o discurso de que a psicanálise é uma técnica que se aplica em um determinado paciente, e que em outro se utilizaria outra abordagem, pois a psicanálise não daria conta. Como se fosse algo que você usa só quando acha necessário, como um par de óculos. Assim como também ouço falar que tenho que atuar como psicóloga hospitalar e que essa área nada tem a ver com a psicanálise, como se desse para destituir, separar as duas coisas. Assim como atuar como psicanalista seria somente no consultório, que na instituição, principalmente no hospital, não daria, pois é necessário uma “intervenção breve”.

Estar orientado pela psicanálise é estar orientado pela ética do desejo, já como dizia Lacan no O Seminário, livro 7. É estar tomado pelo seu discurso, do sujeito do inconsciente, sujeito dividido, pela escuta do inconsciente, pela associação livre. A psicanálise não é uma técnica e sim, uma ética. E é a partir dessa ética que se pode “fazer” psicanálise em qualquer espaço, instituição, não sendo possível se desvestir da mesma.

Sobre a Roda de conversa do Núcleo de Pesquisa Práticas da Letra

Renata Estrella 

Encerramos nossas atividades deste semestre – momento em que seguimos trabalhando as lições sobre a peça Hamlet do Seminário 6 – com uma instigante roda de conversa com Marcus André Vieira e Ram Mandil, contamos também com a participação de Andréia Reis. Nossos convidados puderam trazer algo do encontro de membros ocorrido em Inhotim (abril de 2017) a partir de algumas das nossas inquietações. A conversa partiu de uma questão sobre o desejo, lido por Lacan em Hamlet de forma nova e que abre para uma discussão sobre as relações entre fantasia e sinthoma.

Para Ram, Lacan se pergunta no Seminário 6 como o sujeito vive a pulsão tendo atravessado a fantasia, daí uma aproximação possível entre a narrativa de Shakespeare e a escrita de Joyce, lidas na perspectiva do final da análise. Em Joyce, não aparece na análise de Lacan a questão da fantasia, sendo o sinthoma uma forma de nomeação que não visa o sentido. Somos capturados pela obra de Joyce, há uma transmissão que não é pela identificação, daí a proposta de Marcus André de pensarmos o ato. O ato faria um escoamento de gozo que pode suscitar, ou não, uma nomeação. Pensando, então, o ato em Hamlet, o que parece é que ele só pode se deparar com o desejo a partir da circunscrição simbólica de uma perda real do objeto de onde surge um caroço de real na cena da fantasia que o empurra a agir.  Seguimos, assim, ao próximo semestre com algumas questões, entre elas, o estatuto do objeto na fantasia e no sinthoma e a relação entre desejo e ato, acompanhando o que Lacan traz no Seminário 6 como o grande segredo da psicanálise, “não há Outro do Outro”. Seguiremos trabalhando os escritos de Lacan com o auxílio dos poetas.

Sobre a Conversação virtual dos Núcleos de Psicose e Saúde Mental do Rio e de Santa Catarina

José Marcos de Moura

Este comentário refere-se a conversação virtual entre os Núcleos de Psicose e Saúde mental do Rio e Santa Catarina, ocorrida no dia 06 de maio de 2016.

Basicamente utilizei o livro de Nieves Soria Dafunchio Confines de las Psicosis para esta elaboração.

Para pensar as psicoses, nos valemos de dois paradigmas, o paradigma de Schreber e paradigma de Joyce.

Neste caso, utilizaremos o paradigma de Joyce, ou seja, uma amarração não borromeana entre os três registros R, I, S.  Um paradigma que propõe a generalização da foraclusão, onde a clínica diferencial entre as psicoses (paranoica, esquizofrênica, parafrênica, maníaca, melancólica etc.) está referida a solução que encontra o sujeito para amarração e reparação dos lapsus no nó dos três registros R S I.

Essas reparações do lapso no nó nos fornecem a possibilidade de pensar distintas amarrações possíveis nas psicoses

O nó, borromeano ou não, vai sendo construído e reparado nos vários momentos da vida do sujeito, ele não acontece de um momento para o outro, e sim através de vários enlaçamentos do real, do simbólico e do imaginário na vida do sujeito, que, nesse movimento, produzem a trança da subjetividade.

Voltando ao caso clínico, qual seriam os lapsus que se produziram no nó e qual dos registros se soltou?

Nossa hipótese é que o registro do imaginário se soltou, enquanto que os registros do Real e Simbólico permanecem enganchados.

O esquecimento e o vagar sem sentido, sem rumo e sem memória, poderiam dar conta do momento em que esse registro se solta e o sujeito não conta com nenhuma solução (suplência). A manobra precária que ela utiliza para reparar o lapsus parece ser o andar sem rumo, que na situação em que o registro imaginário se solta completamente, não produz o mesmo efeito.

Essa maneira de pensar a clínica fornece uma indicação preciosa para o trabalho: se o sujeito soltou o registro imaginário não podemos entrar pelo registro faltante. Nesse caso, devemos nos abster de fazer intervenções pelo lado do sentido, da consistência, etc. É necessário recorrer aos demais registros – por exemplo, nesse caso, poderíamos recorrer ao simbólico pelo lado da escrita da letra etc.

Resta investigar quais foram as amarrações que repararam os lapsus desse sujeito no decorrer de sua vida e por qual motivo elas se soltaram. Em outras palavras, quais foram as suplências, ainda que frágeis e precárias, que sustentaram esse sujeito durante grande parte de sua vida?

Assuntos de família no discurso toxicômano: impasses

XVIII Conversação Clínica do IPSM-MG e Conversação TyA Brasil

Resenha do evento ocorrido em 27 de maio de 2017.

Selma Pau Brasil

Na abertura da conversação, Ana Lydia – Diretora do IPSM-MG – informa que foi selado um intercâmbio entre o Instituto, a FEMIG e o Instituto de Córdoba, aprofundando assim a troca entre eles.

Em seguida, aconteceu a “Apresentação de pacientes”, conduzida por Lilany Pacheco e realizada no Centro Mineiro de Toxicomania, que propiciou a discussão clínica do caso em questão e, também, os efeitos dessa transmissão na equipe, assim como os efeitos terapêuticos ocorridos no caso após essa entrevista. A Apresentação de pacientes contou, também, com a presença de quem conduz o caso no CMT, ampliando, dessa forma, a discussão do caso. Contou-se, também, com os comentários de Jorge Castilho, do CIEC de Córdoba, Cassandra Dias Farias, da TYA Paraíba e com a coordenação de Maria Wilma Faria, coordenadora da TYA Brasil.

Após a Apresentação de pacientes, Jesus Santiago comentou a edição revisada de seu livro “A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência”, uma publicação da Coleção BIP, da Biblioteca do Instituto de Psicanálise. Seguido de um coquetel e autógrafos embalados pela banda de jazz chamada “Quatro em ponto”.

Depois do lançamento do livro, aconteceu um delicioso almoço para os participantes do evento e, então, iniciou-se a Conversação Tya Brasil com Daniela Dinard, diretora do CMT; Adriana de Vitta, diretora do Freud Cidadão, e Selma Pau Brasil, da TyA Rio, em que foram discutidos muitos dos impasses sobre os assuntos de família no discurso toxicômano, com grande entusiasmo de todos os participantes. O evento lotou o auditório, necessitando utilizar a transmissão em outra sala.

Foi um evento extremamente interessante e produtivo e promotor de um amplo debate de questões muito importantes para a clínica lacaniana.

 

 

Sobre a Conversação virtual dos Núcleos de Psicose e Saúde Mental do Rio e de Santa Catarina

Vicente Machado Gaglianone

No dia 6 de maio, sábado, às 14hs, aconteceu na Seção Rio a primeira de uma série de Conversações virtuais entre os Núcleos de psicose do Rio e de Santa Catarina. Esse modelo de intercâmbio, que propicia entender e ao mesmo tempo favorecer o múltiplo de nossa Escola, mostrou-se um dispositivo vivo e dinâmico, que já desenvolvíamos há quatro anos com o Instituto de Minas. Abre-se, agora, com SC mais uma série que esperamos dar muitos frutos.

Nessa primeira conversação coube a eles apresentarem o caso e, após nossos comentários, abrir uma roda de conversa. Transcrevo abaixo resumidamente o teor de nossos comentários – a conversação propriamente dita está sendo transcrita para posterior divulgação.

O caso, de autoria de uma colega de Santa Catarina, sob vários aspectos, mostrou-se como um presente sob medida para o “clima” que nos concerne (nós, da grande comunidade do Campo freudiano) nesse ano de trabalho. Ele tensiona, ao menos, um grande pilar da temática de nosso Congresso Mundial que se avizinha: a questão da continuidade/descontinuidade na clínica das psicoses. Sabemos pelas leituras que nos orientam já há vinte anos, desde as grandes Conversações francofônicas e, em particular, as mais recentes que orientam nossa temática, que o binarismo N/P assentado no operador fálico esgarçou-se, gerando uma nebulosidade nos operadores nosográficos. Se a foraclusão é generalizada, a neurose passa a ser uma espécie de gradus da psicose e não o contrário. Não que sejamos todos psicóticos (apesar de delirantes), trata-se do fato de que todo discurso é uma defesa contra o real, como indica Anna Aromí e Xavier Esqué no texto de orientação para Barcelona: foraclusão do significante d’Amulher para todos e foraclusão do significante Nome-do-Pai para a psicose.

No caso de Aline, logo de saída se coloca o problema do desencadeamento tardio de sua psicose. Ao que sugere a leitura do caso, ela virou-se relativamente bem na vida até meados de seus 40 anos. Decidir sobre as coordenadas do desencadeamento é uma tarefa que nos cabe enfrentar, já que não nos parece tão imediata a compreensão. Fica a lembrança da fala irônica de Miller em “Efeito de retorno da psicose ordinária” quando se pergunta se Schereber seria um psicótico ordinário antes do desencadeamento, ou ainda se sua psicose teria desencadeado se ele estivesse sob transferência, em análise.

“Sob transferência” parece ser a chave mestra. Aromí e Esqué mais uma vez colocam o acento aí ao lembrarem que nas psicoses ordinárias o buraco foraclusivo se manifesta por sinais discretos, como uma espécie de carta roubada de Poe, como lembra Bassols. Está ali, mas ninguém a vê. Salvo, é a aposta, sob transferência. Poder, então, localizar no intenso trabalho desses sujeitos aquilo que faz função de grampo, enodando, ainda que de forma frágil, as consistências está na base do processo. Acompanhá-los na regulação de suas pragmáticas examinando os modos pelos quais um sujeito inventa um nó com o imaginário, o simbólico e o real que o sustente sem o auxílio do Nome-do-pai. É como Miller nomeou: a clínica das sutilezas, modular, da gradação e da tonalidade. Miller propõe como uma verdadeira bússola clínica, em seu já citado “Efeito de retorno”, três externalidades: social, corporal e subjetiva, tarefa nem sempre fácil de executar.

Após o desencadeamento, nos parece seguro apostar, a paciente abriu uma psicose esquizofrênica. Lapsos de memória, problemas com o tempo e espaço, alucinações visuais e auditivas, delírios de perseguição, mas sem uma localização de gozo no Outro tão marcada. A hipótese de uma regressão tópica ao estádio de espelho, com franca desorganização do registro imaginário implicando aí todos os fenômenos do corpo morcelée, é bem visível. A questão diagnóstica é sempre um pouco tensa, mas o diagnóstico não é só segregação – até é também se ele vira um imperativo categórico apartado das coordenadas subjetivas do sujeito, mas, bem usado, organiza todo um campo de trabalho. Lembremos Miller em “Efeito de retorno”, nos advertindo que uma psicose ordinária é uma psicose e é nosso trabalho, sob transferência, relacioná-la à paranoia ou à esquizofrenia e também à melancolia.

Há indícios do buraco no simbólico desnudado após o desencadeamento, onde se desfez a parceria que lhe servia de suporte imaginário, realizando, assim, a posição de objeto expulsado do campo do Outro. Ela, como objeto dejeto, sem nenhuma fantasia que pudesse regular a relação do sujeito com o objeto.

Junto com a analista, com a eleição de objetos fora do corpo, foram criando alguma suplência à fragmentação do corpo.