Comentário sobre a Conferência de Éric Laurent “Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência”, apresentado no Congresso de Barcelona 2018[1].

Por: Ondina Machado

Em primeira audição fiquei com alguns termos girando na minha cabeça que nem mosquito de desenho animado. Disrupção? Auto-elaboração? Transferência aplainada? Despertar? Jaculação? Ui!

Comentei com Cristina Duba que estava a meu lado: difícil, né? E pensei: mas muito interessante!

Para meu conforto, não tardou muito para aparecer na internet resumos, comentários e, finalmente, o texto. Não é fácil acompanhar o pensamento de Laurent. Sofisticado, às vezes erudito – entender a jaculação de Píndaro não foi bolinha, mas me provocou. Ele se propõe a pensar a transferência e a interpretação no último ensino e por isso usa o termo ‘loucura’ para dimensionar suas reflexões à foraclusão generalizada, ao “todos somos delirantes”.

Vou me deter na transferência e deixa-los curiosos quanto a “jaculação de Píndaro” como forma geral da interpretação.

Laurent já vem há algum tempo ensaiando um bem dizer sobre a transferência na psicose. Podemos acompanha-lo desde as Conversações, nas quais percebemos que a posição de secretário ou de testemunha não lhe bastam. Nesse texto, me parece, pelo menos até agora, ele alcança um bem-dizer sobre o lugar do analista na transferência com sujeito psicóticos que vai também nos ensinar sobre a transferência quando a relação com o Outro não faz sintoma.

Mesmo com as esparsas menções ao termo transferência no último ensino de Lacan, e com as observações de Miller sobre esse ensino, Laurent identifica uma nova abordagem da transferência como consequência de uma ruptura na ancoragem do psicanalista na suposição de saber. “Ele não está no lugar do sujeito suposto saber, ele está no lugar daquele que segue”. Aqui há o uso de uma homofonia que demonstra não se tratar do ser do analista, mas da sua função: não se trata do “je suis” (eu sou), mas do “il suit” (ele segue). Dessa maneira, digo rapidamente, Laurent propõe o analista como fazendo semblante de uma parceria de gozo, um analista que segue os sulcos cavados pelo gozo na singularidade de cada analisante. Este “ele segue” mais uma vez reforça a ideia de que a transferência, sob a perspectiva do último ensino, não se assenta sobre uma dissimetria tal como pensada no período clássico do sujeito suposto saber. Sem poder contar com o Nome-do-pai, como operar na via da suposição de saber? Ainda mais: como pensar a transferência quando os laços com o Outro se romperam ou são precários?

Laurent usa alguns trechos de Miller no “Ultimíssimo ensino” ampliando seu entendimento. Miller diz que, nesse momento, “Lacan estava farto da psicanálise fundada sobre o Outro”[2] e propõe que a transferência, entendida como simpatia ou antipatia, positiva ou negativa, “foi aplainada, tosqueada”[3] para dar valor ao Um, ao irremediável do gozo, aos sulcos. Entendi esse aplainar não só como nivelar, em contraponto à dissimetria, mas também como tosquear, tirar-lhe os excessos imaginários, reduzi-la a uma função.

Nesse ponto Laurent traz de volta a vizinhança entre amor e ódio – ‘amoródio’, para situar uma nova concepção do une-bévue, tal como Miller propõe. Situa que o ódio é primeiro em relação ao amor e daí parte para entender que o une-bévue, que também pode ser traduzido por tropeço, é o modo pelo qual o inconsciente aparece se ao tropeço for acrescentada uma significação.  A transferência, então, seria seguir esses sulcos e ajudar o analisante nesses tropeços, nos pontos em que lalingua o invade e o deixa à deriva. Com essa parceria, que situo no nível do pequeno outro, seria possível ao analista se posicionar na transferência fazendo com o tropeço um fazer-verdadeiro que restabeleça, a cada momento, as defesas contra a disrupção de gozo.

[1] O primeiro encontro da Unidade de pesquisa Clínica e política do ato foi a discussão desse texto de Laurent. A forma escrita aqui apresentada deve muito à essa discussão e foi a minha contribuição à atividade do Conselho da EBP “Ecos de Barcelona” realizada no dia 7 de maio de 2018.

[2] Miller, J.-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010, p. 142.

[3] Ibid, p. 141.

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LOUCURAS E AMORES NA PSICANÁLISE

Adilson Valentim – Turma 2015

Apaixonado. Foi assim que me senti quanto a Jornada desse ano. Nos dois dias que estive por lá, o que pude ver e ouvir foi um encontro de pessoas absolutamente envolvidas com a Psicanálise. Cada um em seu momento distinto, dentro do qual localiza-se neste saber. Que tantas vezes se coloca como um não saber para que assim se mova. Com pontos de interrogação bastante presentes.

Ao chegar, deparei-me com jovens envolvidos com a venda de livros. De alguma forma, senti-me tocado com o engajamento. Imaginei a hora em que eles haviam chegado lá, para deixar tudo tão arrumado.  Já tinha café. Ao subir as escadas, encontro o auditório especialmente bonito. O mesmo auditório semanalmente frequentado, que de alguma forma já é de casa, estava arrumado e aconchegante. Pensei: isso é fruto do Desejo. Alguém desejou isso.

O que se fazia presente era uma mistura dos que já estão na Escola há mais tempo e dos que estão chegando. Mas, tudo se misturava. Era uma coisa só.

As mesas começaram a apresentar seus trabalhos. E fui percebendo algo que para mim é uma marca que muito aprecio na Escola. Que é a forma natural e tranquila com que não se levam a sério. Quando digo isso, não estou me referindo a outra coisa senão à naturalidade com que se colocam, muitas vezes, na posição de não saber. E começar uma apresentação sem saber onde ela terminará, apenas sabendo que o desejo os levou até ali e que o não saber fará o resto. O Testemunho de Passe de Maria Josefina Fuentes, apresentado na primeira noite, é um destaque a esse respeito.

Talvez o que faça tal postura acontecer seja o acolhimento generoso sempre presente na Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio.

No fim da primeira noite, eu já estava encantado, cativado e apaixonado. E ao descer as escadas me deparo com gente. Parecia que a festa programada para o dia seguinte já estava acontecendo. E fiquei. Naquele momento não tinha mais como não ir na festa de encerramento da Jornada, também de encerramento do ano. Era impossível não ir. Na manhã do dia seguinte foi a primeira coisa que fiz ao chegar, inscrevi-me para a festa.

Araceli Fuentes fez-se presente como convidada. E junto dela o tempo todo duas intérpretes absolutamente focadas, cada uma a seu modo, confirmaram a cena que já estava estabelecida no dia anterior.

A pose para a foto das equipes que trabalharam expressava alegria e satisfação. Que foto bonita!

No fim, foi deixar o Supereu em algum lugar,  não sei onde,  e ir à Festa.

Loucura Amor é na Psicanálise

Por Rodrigo Pedalini – Turma 2017

Perdoem-me pelo pobre mas inevitável jogo de significantes que intitula o texto que abaixo se incorpora.

Convidado a escrever em eco ao que vi e ouvi das XXV Jornadas Clínicas da Escola Brasileira de Psicanálise Seção Rio e do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro (10 e 11 de novembro de 2017), estou aqui olhando para o folder de programação da Jornada, para seu logotipo e pensando que a palavra Amor,escrita entre Loucura e Psicanálise, provocou em mim algumas elucubrações. Primeiro que, assim como inscrito, o amor foi o ponto central da Jornada. Eram sorrisos, agradecimentos, elogios, pontuações, declarações e demonstrações diversas de amor. Do amor que impulsionou o trabalho, a produção e a perseverança de cada um dos participantes até então. Era como se todo o amor acumulado, motor do trabalho realizado durante meses, estivesse sendo declarado apaixonado nesses dois dias. Recebemos até mesmo um generoso presente, com o relato do que foi passado da Analista de Escola Maria Josefina Fuentes. Foi, no entanto, quando falou Pepita que nos ficou claro que o que se passava naquele momento era, mais que um relato, uma declaração de amor à psicanálise e à Escola.

“Traduttore — Traditore!”

Também e além, ocorre-me que estar com Lacan é estar no campo de uma outra linguagem. Participar como ouvinte das referidas Jornadas Clinicas foi, em dado momento e talvez com algum exagero figurativo, como participar do Oitavo Congresso da Academia Sueca de Letras, sem tradução simultânea. Foi dar-me conta que “aprender” Lacan (e aqui uso esse significante com a absoluta certeza de sua insuficiência no que se refere ao ensino de Lacan) é aprender uma outra língua e, ainda que não queira entrar aqui no campo teórico do Outro com sua linguagem, é dar-me conta de que não há tradução capaz de traduzir Lacan (tivemos até mesmo um momento de tradução de espanhol para espanhol! – os ouvidos atentos puderam perceber).

Mas… quem sabe o amor. O Amor é capaz de traduzir (e trair) a Loucura de Lacan em Psicanálise. Aí se faz transmissão.

Nota: Para quem não notou, Freud esteve lá e quis deixar presentes também: Os chistes – um de seus exemplos marca a segunda parte desse texto- estavam presentes em todas as mesas e eixos, e posso dizer que pude rir bastante (mesmo antes de beber). O ato falho Barcelona-Madri estava ótimo! O sonho, talvez o tenha acabado de relatar.

Ecos da Jornada

Por Leonardo Lacerda – Turma 2017

A palavra arte é a tradução latina para a palavra techné. Τεχνη em grego, ou simplesmente techné, significava para os gregos fazer aparecer, ποιησις, poíesis, o que faz com que algo passe do não ser para o ser, ou seja, remete à noção de desvelamento, revelação, produção da “verdade”, e dá origem a palavra poesia. Assim, como não pensar na dimensão poética do trabalho do analista, tanto na sua atuação prática como na teórica? O sintagma usual “práxis lacaniana”, nesse sentido, remeteria a um modo de  agir do analista que aponta para uma ação simplificada, que pouco tem a ver com o que nos foi apresentado nesses dois dias da XXV Jornada intitulada “Loucuras e amores na psicanálise”. O que vimos, nesses dois dias de intensos trabalhos, foi a elevação de dois significantes tão banais, cimentados a uma semântica pelo seu uso ordinário, a uma outra condição, um outro patamar. Como do mármore bruto Michelangelo produziu Davi, também dos termos “amor” e “loucura” pode-se extrair, a partir do trabalho poético dos conferentes e dos audientes e das ferramentas teóricas que a psicanálise de orientação lacaniana nos fornece, a não-toda potência desses significantes. Portanto, o trabalho sobre esses dois termos, por tudo que produziu nesses dois dias de jornada, não pode ser pensado senão como um trabalho artístico, poético, no seu sentido mais originário. E se nos obrigamos a escrever aqui o que fica para nós, do acontecimento que foi a Jornada, a resposta não poderia ser diferente da seguinte: a psicanálise é, sem dúvida, uma potência onde não se vislumbra seu esgotamento e a relevância desse dispositivo para nós, habitados de uma forma ou de outra pela linguagem, lançados no incontornável mal-estar produzido pela tensão entre a loucura e o amor, afirma-se na sua capacidade desmedida de dar respostas (e, sim, com estatuto poético) e amparo, aos sofrimentos  que nos acometem nesses tempos tão difíceis.

Nas ondas de “Corpo Elétrico”

Por Cecília Moraes participante do núcleo de psicose e saúde mental

Como atividade preparatória para as XXV Jornadas Clínicas, tivemos a exibição do filme “Corpo Elétrico”, seguida por um debate pulsante, que contou com a presença do diretor, Marcelo Caetano, de Marcus André Vieira e de Paulo Vidal, em mesa coordenada por Andréa Reis.

Como dar notícias desse encontro? Escolhi fazê-lo partindo do efeito que teve em mim o filme.

“Corpo elétrico” me comoveu bastante. Num momento em que se observa, cada vez mais, a segregação como modo proeminente de se lidar com a alteridade, com aquilo que resta de inassimilável no Outro, um filme que traz a convivência entre as mais diferentes pessoas sem que apareçam grandes conflitos, nem violência, comove. E o faz ainda mais porquanto o ambiente que as reúnem é um lugar que se imaginaria, em princípio, pouco fértil às trocas: uma fábrica de roupas, onde operários passam longas horas do seu dia debruçados sobre máquinas realizando movimentos repetitivos e solitários. No entanto, o que se assiste na tela desconstrói essa idéia. Não só as trocas ocorrem (como poderia ser diferente?), como ainda se dão muito harmonicamente entre os diversos personagens. Gays, heteros, mulheres, homens, negros, brancos, um evangélico, um estrangeiro… todos convivem sem entrar em colisão.

O espectador, como foi dito no debate, fica à espera de que algo irá destruir essa harmonia, aniquilá-la. Mas mesmo quando há uma fagulha de desentendimento, logo ela se dissipa, e a harmonia é reestabelecida.

O filme é só amor. Amor que flui por todos os lados e que desagua sem barreiras.

Não seria uma utopia? – algum comentário trouxe em seu bojo a questão. O diretor prefere falar em “heterotopia”, uma noção de Foucault, que ele resume como sendo um espaço heterogêneo dentro do real (aqui entendido como realidade), mas que é ao mesmo tempo uma fissura no real. Na perspectiva de Marcelo Caetano, trata-se de uma realidade improvável, porém não impossível.

Para a psicanálise, no entanto, não há como se pensar relações sem conflitos. A inexistência da relação sexual para o ser falante implica um desencaixe fundamental, um descompasso inerente às relações humanas. O mal-entendido está no berço da linguagem. E, se por um lado isso traz muitas perturbações no trato com o outro, é também o que nos permite continuar dirigindo a palavra ao Outro. Ou seja, é justamente o que nos permite fazer laço social, estar no discurso.

Os personagens do filme não estão fora do laço social. Mas talvez eles retratem um pouco a forma como o sujeito contemporâneo se engaja nas relações sociais hoje. São laços mais efêmeros, circunstanciais, líquidos. O que não quer dizer, porém, que não possam ser intensos. Elias, personagem central do filme, representa bem esse sujeito. O diretor disse que se inspirou no observador do poema de Walt Whitman, “Eu canto o corpo elétrico”, para este personagem. Assim como o observador, refletiu Marcelo Caetano, Elias vive a margem e transita por todos os lugares. Ele não está em lugar nenhum, concluiu. Talvez por isso Elias não consiga dizer onde se vê em 5 anos, quando o perguntam. Ele parece viver o presente sem muitos vínculos com o passado (só com um ex-namorado, que parece fazer uma função importante para ele) e sem pensar muito no futuro. Essa quase deriva, porém, não o angustia. Ou, pelo menos, não vemos uma angustia ali evidente. Tampouco grandes dúvidas ou dilemas.

No debate, Marcos André lembrou que, hoje, acontece de nos depararmos na clínica com sujeitos que, tal como Elias, não apresentam grandes angústias, ou grandes dilemas. Ainda assim, alguém só chega no consultório de um psicanalista quando existe algum tipo de mal-estar.  Se não é mais tanto a dúvida ou o dilema aquilo que leva os sujeitos a buscarem uma análise, o que é então? Como, em tempos de amores líquidos, o mal-estar se apresenta? E, como é possível pensarmos as ressonâncias disso para a transferência? É no singular do caso a caso que poderemos responder a estas questões e, certamente, as XXV Jornadas Clinicas, cujo tema foi Loucuras e Amores em Psicanálise, tiveram muito a nos dizer sobre isso.

C​OMUNICADO DE ABERTURA DAS INSCRIÇÕES PARA A SELEÇÃO DA TURMA DE 2018 DO CURSO DE TEXTOS FUNDAMENTAIS DO INSTITUTO DE CLÍNICA PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (ICP-RJ)

O Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro tem o prazer de comunicar que em 2018​ abrirá nova turma do Curso de textos fundamentais do ICP-RJ.

Sua duração é de três anos, e tem o objetivo de propiciar o acesso a conceitos que ordenam a experiência analítica, a partir de uma leitura de textos de Lacan e de Freud, no contexto da orientação lacaniana estabelecida por J.-A Miller.

As inscrições para o processo de seleção devem ser realizadas na secretaria do ICP-RJ, com a secretária Rosane, devendo o candidato, nessa ocasião, anexar uma carta de apresentação e seu Curriculum Vitae, no qual devem constar os telefones e o e-mail e será en​trevistado por dois membros do Conselho do ICP-RJ.

O período de inscrição é de 09 de outubro  a 08 de novembro de 2017.

O resultado do processo será comunicado até 13 de dezembro de 2017.

A data para inscrição dos selecionados na secretaria do ICP vai do dia 14 a 22 de dezembro de 2017.

Conselho Deliberativo do ICP-RJ

Informações: Rua Capistrano de Abreu 14, Botafogo. Telefone 22867993. icprio@icprio.com.br

A procrastinação na adolescência e sua relação com o Discurso Capitalista

Marcia Müller Garcez

Temos esmiuçado o texto de Jacques-Alain Miller (2015) ‘Em direção à adolescência’ na Unidade de Pesquisa Clínica e Política do Ato, além de articulá-lo com outras leituras. O texto é uma proposta de Miller como orientação de trabalho para a Jornada do Instituto Psicanalítico da Criança, mas acaba por abarcar e contagiar toda a nossa comunidade psicanalítica, incluindo o próximo Encontro Brasileiro, intitulado ‘Adolescência, a idade do desejo’.
Um recorte do referido texto e que foi trabalhado por mim, em nossas discussões, diz respeito à procrastinação na adolescência. Após discorrer sobre a adolescência enquanto uma construção e toda a controvérsia que a sua definição implica, Miller circunscreve o campo da psicanálise e o que este já se ocupa em relação à adolescência logo de partida, a saber: a saída da infância; a diferença dos sexos; e a imiscuição do adulto na criança. Partimos então, para o que ele vai apontar como novo na adolescência, e consequentemente para a psicanálise, e que decorre de uma mutação na ordem simbólica. Esse novo apontado por Miller implica: uma procrastinação; uma autoerótica do saber; uma realidade imoral; uma socialização sintomática; e um Outro tirânico. Esses cinco aspectos são articuláveis entre si e optei por destacar o discurso da atualidade, a relação de consumo e o elemento pressa – que parece paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir da dinâmica do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos seguir as pistas deste paradoxo pressa x procrastinação. Cabe então, fazer uma passagem rápida pela ideia dos discursos em Lacan.

Os quatro discursos
O primeiro dos discursos a ser explorado por Lacan (1992 [1969-70]) foi o do mestre, apoiado na teoria de Hegel, a partir da dialética do senhor e do escravo. O senhor dirige-se ao escravo, pois é ele quem detém o saber. Ele é essencial para a articulação dos demais e é considerado também como o discurso do inconsciente, pois o comanda, tratando de buscar um saber que escamoteie a verdade do sujeito e renuncie ao resto. Se fizermos um quarto de giro no discurso do mestre, vamos encontrar o discurso da histérica. A problemática apontada por Lacan é que o saber não-todo que o discurso do inconsciente ou do mestre tenta encobrir é justamente aquilo que escapa, o que pode produzir a causa de desejo fazendo com que o funcionamento falhe. É o discurso histérico que fará a passagem da resposta cristalizada do discurso do mestre para a abertura à pergunta sobre o desejo. Uma passagem do enunciado à enunciação.
Ao fazermos mais um quarto de giro nesses esquemas construídos por Lacan, passamos do discurso da histérica, para o discurso do analista, que denota o que ocorre na atividade clínica. Ele muito nos interessa pelo fato de representar o avesso do discurso do mestre, sendo o que pode oferecer uma barreira ao discurso contemporâneo.
O quarto discurso proposto por Lacan, o universitário, situa o saber como agente, como um pretenso saber todo, que produz sujeitos, cuja divisão é desconsiderada. O aluno como objeto a é um produto, sendo aquele que nada sabe e para o qual o saber se dirige.

Discurso Capitalista e procrastinação
Após ter elaborado a teoria dos discursos, Lacan formula a quinta modalidade, uma variação do discurso do mestre conhecida como discurso contemporâneo ou do mestre moderno: o discurso capitalista. Primeiramente, ainda enquanto teoriza sobre os quatro discursos, ao final do Seminário 17, Lacan situa o discurso universitário como o do mestre moderno (p.195). Em 1972, numa conferência em Milão ele o nomeia de capitalista e apresenta seu esquema. A grande novidade desse discurso é que todos os elementos são articulados apresentando uma nova dinâmica, a partir de uma organização – ou reorganização – das flechas.

Observando o movimento das flechas, percebemos a dinâmica capitalista que denota a relação direta do sujeito contemporâneo com os objetos de consumo, em um acesso imediato. Notamos também que, em relação ao discurso do mestre, a variação se encontra na inversão do lugar do agente e da verdade. O sujeito ($) com suas faltas, dividido, demanda ao significante-mestre (S1) que imediatamente se dirige ao saber (S2), o qual produz os objetos a serem ofertados ao sujeito recomeçando o ciclo, produzindo uma infinitização.
Esses objetos são os gadgets que vemos pululando na contemporaneidade. Se acompanharmos as flechas, vemos um movimento infinito, tal como o afirma Aflalo (2008): “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido” (p. 83). Com este último discurso apresentado, esbarramos no grande paradoxo da lógica capitalista na atualidade: diante da oferta incessante do mestre moderno, algo precisa ser produzido, a fim de suprir a falta, com uma pressa para que a angústia não possa emergir; ao mesmo tempo, o excesso de produção e seu transbordamento de gozo acarretam dificuldades discursivas, que podem ser testemunhadas nas precariedades simbólicas, típicas do século XXI. É uma nova modalidade de discurso que não apresenta apenas uma variação do discurso original – do mestre ou do inconsciente – no intuito de evitação do real, mas demonstra uma organização de ofertas e demandas aceleradas e que na adolescência podemos fazer a leitura como um “prolongamento da adolescência” apontado por Miller (2015).
É essa mesma velocidade que indica o outro ponto tratado como novo no texto ‘Em direção à adolescência’, que é a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, o saber está no bolso e de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se. Não há mais relação com o Outro que passa a ser tirânico, e esse leque resulta na socialização sintomática. Todos esses aspectos que indicam o que é novo na adolescência – e para a psicanálise na relação com ela – parecem partir da procrastinação que se dá na contrapartida da pressa que escamoteia o real de uma passagem para o que seria uma vida adulta.

Referências:
AFLALO, Agnès. Discurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].

MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/