Notas sobre o encontro do Núcleo de Psicanálise e Direito com Manoel Motta

Luiza Sarrat Rangel 

Na sexta-feira, 14 de julho, tivemos o encontro com Manoel Motta, que nos falou sobre o caso Landru. Um homem francês com características singulares, que inicialmente comete pequenas escroquerias, antes de se lançar à carreira criminal propriamente dita. Justificava a transgressão à lei como uma forma de cuidar da sua família, e numa sequência de passagens ao ato, com a licença para matar dada pela guerra, torna-se um assassino em série.

Landru se apresenta em relação à psicose de uma maneira singular, portando o semblante de uma normalidade aparente, que seduzia suas vítimas e tornava seus atos inacreditáveis. Escondia o modo como operava os crimes, negava as mortes, embora tenha deixado diversos sinais, algumas anotações e recortes de notícias que levaram ao desfecho da investigação da morte de algumas de suas vítimas por dedução, uma vez que os corpos das mulheres que matou, dos seus animais de estimação, e do filho de uma delas jamais foram encontrados de maneira que houvesse a possibilidade de identificação e reconhecimento.

Dada a singularidade do caso, Manoel Motta destaca que “o real lacaniano é sem lei”, mesmo que o simbólico seja constituído no campo do real a partir da lei. A lei da repetição significante revela o que há de singular na atuação desse sujeito que está associado ao contexto social da época, um real transformado pelo capitalismo, pela ciência e pela técnica. É nesse contexto que se desfaz, para ele, o laço social.

Antes disso era um inventor, chegou a inventar uma bicicleta com seu nome, não teve muito sucesso e depois de um certo tempo começou a enrolar clientes, mudar de lugar, mudar de nome, fazer pequenos roubos, não se inseria nas normas capitalistas ditas normais, empresariais. Ele não tinha uma identidade social muito consistente, mudava de residência constantemente, fazia a família o acompanhar, se apresentava por meio de diversas profissões, usava uma série de máscaras que não funcionavam efetivamente no laço social, e passa ao ato a partir do momento em que a guerra se desencadeia.

Para Romildo do Rêgo Barros, o testemunho material dos resíduos dos corpos das vítimas e dos seus animais é um traço fundamental na história. Romildo chama atenção para uma frase do livro de Michel Silvestre, de que “o psicótico tem imaginário e tem simbólico e é diferente porque essa articulação entre simbólico e imaginário não é fincada no corpo”.

Landru constrói essa junção do simbólico e do imaginário fora do corpo pela série de passagens ao ato, que só toma um sentido se considerado na série, até o ponto que há uma certa monotonia na repetição. Uma certa sombra, indistinção. A série é mais importante do que as características de cada mulher.

Landru vai na direção de construção do dispositivo, uma máquina que funcionasse para sempre a tal ponto que os detalhes do assassinato se tornem secundários. O fundamental é que por causa da esquizofrenia ele construa um dispositivo que funcione até que os resíduos dos corpos de suas vítimas que são indestrutíveis, por exemplo, dentes, apareçam e comecem a falar. De repente, são os objetos dejetos que começam a falar diante do silêncio do criminoso que não confessa seus crimes. Todo crime que alimenta a máquina produz exceções que são os objetos e os resíduos. O que escapa à inteireza imaginária dos corpos? O caso mostra isso bem.

 

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Sobre a Jornada de Encerramento da Turma 2014 – parte 3

Comentários de Ana Beatriz Rocha Bernat (Turma 2014) sobre a mesa “Corpo e angústia”

A mesa foi coordenada por Fernando Coutinho e contou com as contribuições de Sarita Gelbert para o debate. Ana Beatriz Rocha Bernat, Maira Dominato Rossi e Monica Marchese Swinerd, apresentaram os trabalhos: “A incidência da escuta do analista na clínica do luto: do buraco ao vazio”; “Um corpo: entre o gozo e o desejo” e “Do corpo doente ao corpo abusado: sobre uma entrada em análise”, respectivamente. A organização da Jornada construiu esta mesa em função dos eixos corpo, medicina e angústia e os trabalhos vieram dar testemunho da clínica orientada pela psicanálise em instituições médicas e seus efeitos para a escuta do sujeito e de seu corpo.

Ficou bastante evidente a potência da escuta psicanalítica para acolher aquilo que resta do discurso médico e manifesta-se sob a forma de angústia no contexto hospitalar. Acolher o sujeito, seja ele o paciente ou a equipe que trata dele, e “instrumentalizar a angústia” seria a grande contribuição destes trabalhos, todos construídos a partir de fragmentos de casos das praticantes no hospital.

Sarita Gelbert iniciou o debate evocando uma Conferência de Lacan intitulada “O lugar da Psicanálise na Medicina”, sublinhou a importância do trabalho do analista com a equipe interdisciplinar que assiste ao paciente, a diferença e mesmo o declínio da função do médico na atualidade, se comparado ao médico sábio de antigamente. Lacan, nesta conferência, sublinha que o corpo goza e encontra-se dividido entre gozo e desejo, que está na forma do médico responder à demanda que lhe é endereçada a justificativa de sua existência. Há uma dimensão ética aí implicada e um trabalho do analista neste contexto dirigido ao gozo e que favorece a instrumentalização da angústia dos sujeitos envolvidos neste contexto.

Do primeiro trabalho, Sarita destacou a relevância do trabalho de luto no contexto da oncologia pediátrica que envolve a tríade câncer, criança e morte e um excesso sem fim. O manejo do caso tornou-se possível a partir do manejo da demanda dentro da equipe e da possibilidade de acolhimento daquele pai enlutado. Trata-se da equipe muitas vezes poder suportar a “transferência negativa” sem a ela responder defensivamente. Houve uma questão sobre a forma de tomarmos o ato deste pai: seriam passagens ao ato ou atuações. E a construção da escuta deste caso que só foi possível a partir de seu acolhimento em um grupo e da tomada daqueles atos, que eram indicativos de um tratamento selvagem dado à angústia por aquele sujeito, como um apelo e pela oferta e sustentação da escuta orientada pela psicanálise em outro contexto (fora do grupo). O encaminhamento do caso dentro da equipe favoreceu a sintomatização de tamanha angústia e a elaboração possível do luto.

Do segundo trabalho, Sarita destacou a relevância da instrumentalização da angústia no caso de uma paciente que se submete a três cirurgias de extração. Apontou na posição da paciente não ter espelho uma interrupção do circuito pulsional que envolve o olhar neste caso. Evocou a definição lacaniana da inibição como “sintoma posto no museu” e levantou a questão: “as cirurgias neste caso não seriam uma passagem ao ato, um encontro com o corpo despedaçado”.

Do terceiro trabalho, sublinhou-se a função do analista “construir fraturas” no discurso médico protocolar e favorecer o ciframento do gozo por parte do sujeito em tratamento psicológico que neste caso, dada a orientação de trabalho da praticante, tornou-se uma demanda de análise. Observou-se ainda neste caso a pregnância do objeto voz e que a incidência da escuta da analista tornou o câncer para esta paciente uma coisa completamente diferente do que era antes deste convite à palavra.

Trata-se, então, na escuta orientada pela psicanálise na instituição hospitalar, de favorecer o ciframento do gozo e estarmos atentos ao que poderíamos nomear como tratamento selvagem dado ao gozo.

 

Sobre a Jornada de Encerramento da Turma 2014 – parte 2

Comentários de Cecilia B. Castro (Turma de 2015) sobre o trabalho “O brincar e o desenho na análise com criança”

A Jornada, organizada em 4 mesas, versou sobre os seguintes eixos principais:

  1. Sobre o analista
  2. A clínica com crianças
  3. Corpo e angústia
  4. Algumas psicoses

Quatorze autores apresentaram seus textos, embasados pela experiência clínica e pelo cotejamento teórico, revisados por orientadores e matizados pela singularidade de cada olhar. Cada mesa contou com um debatedor que soube enriquecer aspectos das leituras dos casos, reconsiderando-os sob novas lentes, suscitando novos efeitos e fazendo circular entre os presentes o desejo de mais, ainda.

Na mesa 2, Andrea Cavalcanti de Freitas apresentou seu trabalho, intitulado: “O brincar e o desenho na análise com criança”. Selecionei este texto para comentar porque me interesso pela interação entre psicanálise e arte, sintoma e fantasia. Pelas palavras de Andrea pude fazer diversas associações importantes à temática do meu interesse, ainda que seu foco principal de investigação recaísse sobre o tema aparentemente específico do brincar infantil.

Logo na abertura, Andrea aponta o texto de Freud de 1904 “Personagens psicopáticos no palco”. Ela recorta do texto que “ser espectador participante seria para o adulto o mesmo que representa o brincar para a criança”. O jogo dramático, a encenação, provocaria prazer, na comédia ou no drama.

Mas, como poderíamos especular por que esse prazer no jogo de cena (e em outras expressões artísticas) ocorreria? O eu (o espectador) se vê como distinto do outro (o ator), mas pode eventualmente rever esta posição, sendo assaltado por uma inquietante estranheza – o que mostra que coexistem nele correntes divergentes. Tal como no Unheimliche, algo fica nas sombras e se mostra, a uma só vez, estranho e familiar. É desta con-fusão que a arte tira partido[1].

Como se estuda na arte, o conhecimento mimético se estabelece através da representação pela imagem, pelo símbolo, assim como a criança imita as ações das pessoas para compreender o que elas significam[2]. Nesse sentido, a incorporação de imagens visuais, em qualquer idade, é um dos modos pelos quais nos apoderamos, pela fantasia, de tudo que não podemos (se bem que o desejemos) possuir na realidade[3].

Andrea segue citando um outro texto de Freud, de 1907, “Escritores criativos e devaneios”, no qual ele afirma que o brincar da criança é determinado por desejos e que nesse ato ela se comporta como um escritor criativo. Como cita Andrea, a obra literária, assim como o devaneio, seria uma continuação ou um substituto do brincar infantil. A partir da leitura de “Além do princípio do prazer”, obra de Freud datada de 1920, Andrea prossegue mencionando a ideia do prazer envolvido no brincar e de como a operação implicada neste ato pode, pela repetição (ou mímesis, imitação), fazer a criança passar da passividade para um papel ativo e transferir uma experiência desagradável e realizar uma substituição. Daí parte o questionamento e pesquisa de Andrea: considerando o brincar infantil no trabalho psicanalítico, como o analista pode interpretar este brincar?

Andrea, então, vai tecendo o enquadramento da abordagem psicanalítica, onde se deve evitar a produção de sentido padronizada, permitindo que a singularidade do sujeito emerja, a seu tempo, sem apressar interpretações prematuras, como bem o fez Freud no caso do menino Hans. Em seguida, a partir de Lacan, Andrea discorre brevemente sobre alguns casos de atendimento a crianças realizados por Anna Freud, Melanie Klein e Rosine Lefort. Lacan sustenta que, sejam de adulto ou de criança, as produções do sujeito não são para serem decifradas ou preenchidas de sentido pelo analista. O que está em jogo não são propriamente os elementos do desenho, da brincadeira ou do relato. Para Lacan, as repetições apontam para o que não está lá e trata-se do objeto a.

É nesta oportunidade que Andrea se vale do texto de Marie-Hélène Brousse “O objeto da arte na época do fim do belo: do objeto ao objeto” onde a autora considera que o artista contemporâneo interpreta objetos comuns e os articula com o objeto a – tal qual este circula na psicanálise. Desse modo, Andrea formula: se há uma aproximação entre o fazer artístico e as invenções do sujeito na psicanálise, entre arte e objeto a, como ler o brincar na análise de crianças?

Sendo a arte contemporânea considerada como sendo da ordem do fora do sentido, mas que, no entanto, algo parece ali se inscrever, Andrea constrói uma ponte com a produção das crianças, que criam sem se preocuparem com coerências ou explicações e que também rompem com o sentido formal, inventando algo de singular, abrindo uma possibilidade de relação com o objeto a.

Brousse, em texto de 2008 “O saber dos artistas”, ampara-se em Lacan para resumir: “a psicanálise não se aplica à arte, é a arte que se aplica à psicanálise”. Antes de iniciar a apresentação de casos clínicos, Andrea conclui: o analista que atende crianças, em analogia do espectador da arte contemporânea, encontra o desafio de experimentar uma ruptura do olhar e deve olhar para além de.

Retomando aspectos teóricos sobre arte, na direção de relacioná-los com o fazer da psicanálise, finalizo comentando, a partir de Theodor Adorno, que toda obra de arte tem uma dimensão de enigma insuperável. Para compreender a arte, é preciso ser familiar a ela e manter sua estranheza, pois a compreensão não dissolve o enigma. Daí é necessário um processo mimético para entendê-la, é preciso imitá-la, ou seja, deixar ressoar o que a obra tem de singular e único em nós. A linguagem da arte só é alcançada com seu silêncio[4]. Acrescento, ainda, que a dualidade possível na compreensão desta frase é benvinda.

[1] RIVERA, Tania. Guimarâes Rosa e a Psicanálise; ensaios sobre imagem e escrita. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (p.15)

[2] FREITAS, Verlaine. Adorno e a arte contemporânea. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. (p.12)

[3] FULLER, Peter. Arte e Psicanálise. Lisboa: Dom Quixote, 1983. (p.149)

[4] FREITAS, Verlaine. Adorno e a arte contemporânea. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. (p.34-36; 46)