Intercâmbio da Unidade de Pesquisa “Clínica e política do ato” com o departamento VEL – Violência e Estudos Lacanianos do ICBA – Instituto Clínico de Buenos Aires 

No debate de um caso clínico foi recortada a demanda de contenção que, por estrutura, não pode se manifestar senão com o próprio corpo. Esse movimento aparecia sob a forma de idas e vindas do paciente em um dispositivo de Saúde Mental, uma presença que, evocando o Fort Da, se fazia pelo real.

Ao recortarmos esse movimento como o modo de estar no dispositivo a sua maneira, percebeu-se que as palavras não se articulavam em um discurso, seus elementos eram dispersos onde o S1 não se ligava ao S2, prejudicando o laço social.

O ir e vir criava fugazes e precários pontos de basta que, mesmo assim, possibilitavam alguns momentos de organização imaginária e interrompiam o automaton no uso de drogas.

Discussão rica possibilitada pelo intercâmbio da Unidade de Pesquisa “Clínica e política do ato” com o departamento VEL – Violência e Estudos Lacanianos do ICBA – Instituto Clínico de Buenos Aires.

Nosso afeto e agradecimento aos colegas Marcelo Marotta, Graciela Ruiz e Ernesto Derezensky. Valeu Gustavo Kroitor pelo apoio internético!  

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Como experimentei o XXII Encontro do Campo Freudiano

Por Sonia Carneiro Leão

Sou aluna do ICP-RJ, da turma de 2017. Tenho tentado acompanhar o ensino de Lacan, não sem dificuldades, como se olhasse a Via Láctea, tão bonita, misteriosa e distante, aqui da Terra. Mas a necessidade permanente de aprimorar as minhas lentes me diz sempre que, quem sabe, um dia, conseguirei chegar a ver melhor uma tal estrela, ou um buraco negro. Tudo muito fascinante. O desejo de ver, de conhecer, de descobrir, me guiando.
Assim sendo, fui participar do XXII Encontro do Campo Freudiano num majestoso hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Excitada, sonhando em me aproximar um pouco mais da minha querida Via.
O que encontrei?
Um anfiteatro enorme. Cheio. Silencioso. Solene. Um pólo convergente para onde afluíram pessoas esperando os dizeres, as falas, os saberes. Um núcleo etéreo, volátil, em torno das revelações por vir. O olhar fixo no palco, onde a palavra circulava.
E a sempre presente sensação de estar olhando as estrelas longínquas, a olho nu. Vozes que nos chegavam de um espaço para além.
Aliás, os significantes mais pronunciados foram exatamente esses: para além, mais além. A visão do infinito se nos abrindo a cada instante, sem bordas. Uma experiência xamânica.
O que mais me ficou registrado?
Há Sintoma no Real.
O sintoma é o que é, assim como as estrelas.
As insígnias.
O deserto do gozo.
O saber fazer com o Um.
A psicanálise, experiência da palavra.
Lidar com o intraduzível.
Expressar o intraduzível.
Escrever sobre o escrever.
A face assemântica da análise.
O encanto se cumpriu. Retornamos, desses três dias de embriaguez, siderados por um saber não-todo, que não se fecha. Mas nos ficaram vestígios, vestígios de um impossível, daquilo que nos abre eternamente para um mais além, o mais além do falo, o mais além do ser.