Ressonâncias da conferência de Marina Recalde: O mal entendido do corpo

Marina cita Miller em Peças Soltas ao falar da dimensão real do corpo como mais além do significante, ou em outras palavras, o corpo falante enquanto inconsciente é o real. Entretanto, a problemática que persiste na psicanálise vai justamente ao encontro dessa afirmação: o que pode ganhar, afinal, estatuto de significante ou não? Unido a isso e ainda como ecos do Enapol, Marina ratifica que a questão de como atingir o gozo com a palavra parece assombrar insistentemente os analistas, uma vez que há uma hiância inalcançável entre o significante e o que escapa dele como gozo.

Aponta ainda que há uma disjunção do significante e gozo, já que este prescinde do Outro. Ora, se o percurso de uma análise vai do corpo falado pelo Outro (sintoma) para o falar com o corpo (sinthoma) e a clínica atual nos mostra uma dificuldade de dirigir-se ao Outro, a questão do que é possível ao analista se faz presente. Marina nos indica que os analistas já estão sabendo-fazer alguma coisa diante disso, porém é preciso dizê-lo melhor, ou transmiti-lo melhor, se podemos assim articular, e faríamos então, tal como deve ser, a teorização da prática e não a prática da teoria.

Com isso, Marina aposta de que o encontro com um analista tem efeitos no corpo e na subjetividade elevada a uma “dignidade subjetiva”. Uma questão ficou para mim: se é preciso localizar o falante do corpo, que não é discurso, e só temos a fala do analisante, como pode o analista escutá-lo?

Heloisa Shimabukuro (Turma 2013)

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Notícias do Núcleo de pesquisa

No encontro do dia 02 de outubro, o Núcleo de Topologia teve a oportunidade de trabalhar o tema do corpo falante, a partir do caso de uma adolescente que se encontra na passagem lógica da escolha de uma posição entre os sexos.

O trabalho em análise possibilita a mudança do estatuto da fantasia desse paciente da perda de um pedaço do corpo para uma perda simbólica. O despedaçamento do corpo é localizado junto ao pedaço do corpo que é perdido desde sempre.

Ana Martha Maia

* As menções que pudessem identificar o caso clínico foram retiradas em nome do sigilo do paciente.

Notícias do Núcleo de Topologia

Tendo em vista o “império das imagens” e na direção do “corpo falante”, em seus dois últimos encontros, o Núcleo de Topologia trabalhou o conceito de corpo tórico referenciado no Seminário 24:  L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre (1976-77). Em 21 de agosto, na leitura de um caso de psicanálise com crianças e no dia 18 de setembro, em um caso sobre um corpo falante que busca fazer um corpo através de suplências não ancoradas no simbólico. Neste segundo caso, trata-se de um corpo tórico, furado? Todo corpo pode fazer reviramentos, como os que vimos no caso da criança, o primeiro? – são algumas das perguntas que surgiram.

Stella ressalta que há uma tendência a se pensar na imagem unificada, quando se pensa no imaginário, e se esquece que Lacan sempre colocou, desde o início de seu ensino, que a imagem unificada se sobrepõe a outra imagem, que não é unificada: a imagem do corpo despedaçado. Desta forma, quando agora se fala do “império das imagens”, já não é o império da imagem unificada, mas o império das imagens que mais se ocupam de imaginarizar o corpo fragmentado.

No caso deste segundo corpo falante, desvitalizado, desfalicizado, na falta de uma imagem especular, há a busca da transformação do corpo na imagem do modelo. No entanto, esta amarração dos registros não se sustenta. A tentativa de suplência pela manipulação da imagem fracassa. E é no encontro com Um pai que inicia o desenodamento.

                                                                                                                                          Ana Martha Maia