Resenha do texto “Corpos lacanianos”

Em Granada, setembro de 2009, há exatos seis anos, Marie-Hélène Brousse proferia a conferência intitulada Corpos lacanianos: novidades contemporâneas sobre o Estádio do Espelho, que mantém sua atualidade. Estivemos discutindo esse texto, disponível na Revista Opção Lacaniana on line no 15, com tradução de Elisa Monteiro.

A autora inicia apontando como Lacan, desde os anos 30, procurou apoiar os conceitos psicanalíticos aos postulados científicos. Foi com base na etologia, ciência que estuda o comportamento dos animais, que Jacques Lacan observou também haver uma orientação dos seres falantes de relacionar a imagem ao real, desse modo dando ao imaginário uma base real.

É de 1949 a teoria lacaniana do Estádio do Espelho que estabelece que a unidade do corpo da criança não advém das sensações orgânicas, mas da imagem de si, seja a do espelho ou aquela refletida pelo outro. O organismo, naturalmente caótico, e seu corpo fragmentado necessitam da imagem do corpo para fazer um velamento, uma máscara frente ao real, este impossível de apreensão plena pelo sujeito para realizar sua identificação. Marie-Hélène propõe uma nova leitura do Estádio do Espelho, dizendo da relação necessária entre imagem do corpo e corpo fragmentado, assim como Lacan havia relacionado em matema o significante sobre o significado, a partir de Saussure. Ela adverte que, embora essas variantes sejam separadas, a relação entre estas mesmas partes são absolutamente importantes e, se não harmônica, pode desencadear transtornos subjetivos importantes.

No segundo comentário sobre o Estádio do Espelho, é lembrado que a imagem integrada não se produz para a criança sem a linguagem, sem o que Lacan chama o Outro. Desta vez, nos anos 50, para dizer da ilusão produzida pela apropriação da linguagem pela criança e pela estruturação do inconsciente como uma linguagem, Lacan se vale de um modelo ótico: dependendo da lente do espelho (côncava ou plana) a imagem do real resultará de um modo ou de outro, fragmentário ou unificado. Marie-Hélène prossegue: “a dificuldade nesta escritura se refere aos pontos de encontro entre a experiência orgânica e a imagem do corpo.” A autora esclarece que o laço entre a imagem (do corpo) e o organismo (corpo fragmentado) tem a ver com as experiências de gozo, ou seja, relaciona-se com as zonas erógenas: boca, ânus, falo, ouvidos e olhos. Estas zonas, que não são imagens, permitem grampear a imagem com o organismo e também se referem aos objetos a. Esses objetos, se percebidos na imagem do corpo não causam estranheza, mas se se apresentam fora da imagem do corpo causam angústia. Um objeto a tem um sentido fálico, um valor de significante, se unificado no corpo. Se aparece fora dele, perde seu valor fálico e é puro real. Exemplos: membro amputado, olhar, voz, excremento, cabelo.

Hoje, a ciência possibilita tratar o organismo como partes que podem ser separadas, alteradas, trocadas, convertendo-o em objetos de competência econômica. O discurso da ciência modificou o corpo fragmentado e também a sua imagem. Para que esta se estabeleça já não prescinde da visão humana, muitas imagens podem ser obtidas por máquinas. Toda sorte de intervenção poderá ser praticada, de cirurgias plásticas e transplantes a imagens internas do organismo. Os seres falantes necessitam cada vez mais de informações para fazer barreira à angústia, antes aplacada por discursos tradicionalmente constituídos. Marie-Hélène considera que está em curso uma decadência do Ideal do Eu e um desenvolvimento do eu ideal à medida que a ciência avança. O império da linguagem e das imagens parece ceder ao império da escritura científica.

Concluindo, Marie-Hélène Brousse lembra que a arte contemporânea é aliada da psicanálise no discurso que revela mudanças na cultura em decorrência da ciência. Marie-Hélène crê que estamos cada vez mais em uma civilização de objetos a, tal como eles são, vistos pelo espelho côncavo, fragmentados, sem imagem que os unifique e que proporcione um sentido.

Links para as obras mencionadas no texto, que olham criticamente o nosso tempo, de autoria do artista plástico britânico Damien Hirst:

Cecilia Castro

 

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Notícias do Núcleo de Topologia

Tendo em vista o “império das imagens” e na direção do “corpo falante”, em seus dois últimos encontros, o Núcleo de Topologia trabalhou o conceito de corpo tórico referenciado no Seminário 24:  L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre (1976-77). Em 21 de agosto, na leitura de um caso de psicanálise com crianças e no dia 18 de setembro, em um caso sobre um corpo falante que busca fazer um corpo através de suplências não ancoradas no simbólico. Neste segundo caso, trata-se de um corpo tórico, furado? Todo corpo pode fazer reviramentos, como os que vimos no caso da criança, o primeiro? – são algumas das perguntas que surgiram.

Stella ressalta que há uma tendência a se pensar na imagem unificada, quando se pensa no imaginário, e se esquece que Lacan sempre colocou, desde o início de seu ensino, que a imagem unificada se sobrepõe a outra imagem, que não é unificada: a imagem do corpo despedaçado. Desta forma, quando agora se fala do “império das imagens”, já não é o império da imagem unificada, mas o império das imagens que mais se ocupam de imaginarizar o corpo fragmentado.

No caso deste segundo corpo falante, desvitalizado, desfalicizado, na falta de uma imagem especular, há a busca da transformação do corpo na imagem do modelo. No entanto, esta amarração dos registros não se sustenta. A tentativa de suplência pela manipulação da imagem fracassa. E é no encontro com Um pai que inicia o desenodamento.

                                                                                                                                          Ana Martha Maia