Comentários sobre o Eixo 2 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

Os trabalhos apresentados no Eixo 2 da manhã clínica nos permitiram tocar importantes questões em torno dos Usos do corpo. O que chega à clínica hoje se tornou sensível nas três mesas que compuseram o eixo: que uso fazer desse corpo, muitas vezes estranho, monstruoso, sempre submetido ao movimento pulsional, que não vem com manual de instruções? Como se servir dele? Seja na montagem de um corpo de mulher, no funcionamento de um corpo de homem ou mesmo nos casos em que esses limites não estão em jogo, observamos sujeitos às voltas com suas tentativas de encontrar recursos para lidar com o mal-entendido. O que pode a psicanálise operar nesse ponto?

Nas saídas pela neurose o mal-entendido do corpo aparece como radicalidade na impossibilidade da relação. Há sempre Outro que guardaria a verdade sobre o uso correto do corpo e da satisfação do parceiro, como se a concordância entre identidade e imagem corporal se passasse pela via pedagógica. Para tanto, vemos tentativas frustradas de reunir pedaços dos corpos de outros e, com um desenho ideal, fazer existir a relação sexual. Aqui, a fala em análise pode fazer furo nessa crença, pausa na busca desenfreada pelo ideal e pela completude.

Nas psicoses, por outro lado, onde os pontos de apoio e referência são escassos, é preciso boa dose de criatividade para sustentar-se no discurso. Em mundos onde tudo escapa ou onde tudo é cheio, sem furos, encontramos saídas que podem afastar do real da relação, mas que permitem a construção de semblantes para fazer circular estes corpos. O analista, por vezes, poderá servir de apoio com seu próprio corpo: vimos propostas de parceria onde a voz ou o olhar podem operar como molduras para os corpos destes sujeitos, recursos simbólicos encontrados para moderar a angústia.

De todo modo, no trabalho de análise, seja no sentido de operar cortes ou amarrações, é possível inventar formas de sustentar-se frente ao olhar do Outro para valer-se daquilo que, no corpo, escapa. “Nunca se é aquilo que se tem” -, nos disse Marina Recalde em sua conferência na sexta-feira – mas para que esse corpo não se apresente totalmente à deriva, à revelia do sujeito, é importante poder modular “algo do corpo que não se deixa capturar”. Nos casos clínicos apresentados pudemos ler o trabalho dos analistas neste sentido. Cuidadosamente comentados, os casos convergiram para a discussão sobre a importância da hipótese diagnóstica. Concluiu-se que é essencial sustentar essa discussão e seus impasses, sem renunciar a ela, pois a direção do tratamento não está desarticulada dos usos do corpo que poderão surgir em cada caso.

Marina Sereno (Turma 2015)

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Ressonâncias da conferência de Marina Recalde: O mal entendido do corpo

Marina cita Miller em Peças Soltas ao falar da dimensão real do corpo como mais além do significante, ou em outras palavras, o corpo falante enquanto inconsciente é o real. Entretanto, a problemática que persiste na psicanálise vai justamente ao encontro dessa afirmação: o que pode ganhar, afinal, estatuto de significante ou não? Unido a isso e ainda como ecos do Enapol, Marina ratifica que a questão de como atingir o gozo com a palavra parece assombrar insistentemente os analistas, uma vez que há uma hiância inalcançável entre o significante e o que escapa dele como gozo.

Aponta ainda que há uma disjunção do significante e gozo, já que este prescinde do Outro. Ora, se o percurso de uma análise vai do corpo falado pelo Outro (sintoma) para o falar com o corpo (sinthoma) e a clínica atual nos mostra uma dificuldade de dirigir-se ao Outro, a questão do que é possível ao analista se faz presente. Marina nos indica que os analistas já estão sabendo-fazer alguma coisa diante disso, porém é preciso dizê-lo melhor, ou transmiti-lo melhor, se podemos assim articular, e faríamos então, tal como deve ser, a teorização da prática e não a prática da teoria.

Com isso, Marina aposta de que o encontro com um analista tem efeitos no corpo e na subjetividade elevada a uma “dignidade subjetiva”. Uma questão ficou para mim: se é preciso localizar o falante do corpo, que não é discurso, e só temos a fala do analisante, como pode o analista escutá-lo?

Heloisa Shimabukuro (Turma 2013)

Sobre a Conversação dos Núcleos e Unidades de Pesquisa do ICP

A primeira manhã da XXIV Jornadas Clínicas foi aberta por Maria do Rosário nos convidando a acompanhar os casos trabalhados pelos Núcleos e Unidades de Pesquisa. Cristina Duba nos apresenta o caso trabalhado na Unidade de Pesquisa Clínica e Política do ato, deixando-nos como questão uma indagação acerca da verdade, lembrando que a verdade não pode ser toda dita, pois o que está em jogo é a verdade do desejo, e nesse caso, é o desejo do analista que pode levar o sujeito a uma nova invenção, pois há algo de real que não pode ser dito.

Lenita Bentes comenta o caso apresentado pelo Núcleo de Psicanálise e Medicina, ressaltando o manejo do analista ao propor a objetalização da medicação à objetificação do sujeito, quando da posição de psiquiatra passa à do analista. O que o analista faz é apostar na transferência.

Angélica Bastos apresenta-nos um caso clínico trabalhado na Unidade de Pesquisa Práticas da letra, marcando o lugar do analista para sustentar a construção de uma suplência no caso de uma psicose atendida em um consultório na rua e depois em Caps. Alerta-nos sobre a ética do psicanalista na sustentação de um real impossível.

Vicente Gaglianone comenta o caso de uma criança do Núcleo Curumim, destacando o analista com seu corpo em jogo com o efeito de apaziguamento para o sujeito, permitindo a enunciação de um nome que possa fazer um contorno ao real.

Por fim, e após intenso debate, ficamos com a presença e fala de Marina Recalde, ao nos dizer que todos “são casos que despertam”. Penso que é o analista que se fez despertar em cada caso, pois como disse Marina Recalde “o que se escuta é o analista por todo o lado”.

Monica Marchese (Turma 2014)