Intercâmbio da Unidade de Pesquisa “Clínica e política do ato” com o departamento VEL – Violência e Estudos Lacanianos do ICBA – Instituto Clínico de Buenos Aires 

No debate de um caso clínico foi recortada a demanda de contenção que, por estrutura, não pode se manifestar senão com o próprio corpo. Esse movimento aparecia sob a forma de idas e vindas do paciente em um dispositivo de Saúde Mental, uma presença que, evocando o Fort Da, se fazia pelo real.

Ao recortarmos esse movimento como o modo de estar no dispositivo a sua maneira, percebeu-se que as palavras não se articulavam em um discurso, seus elementos eram dispersos onde o S1 não se ligava ao S2, prejudicando o laço social.

O ir e vir criava fugazes e precários pontos de basta que, mesmo assim, possibilitavam alguns momentos de organização imaginária e interrompiam o automaton no uso de drogas.

Discussão rica possibilitada pelo intercâmbio da Unidade de Pesquisa “Clínica e política do ato” com o departamento VEL – Violência e Estudos Lacanianos do ICBA – Instituto Clínico de Buenos Aires.

Nosso afeto e agradecimento aos colegas Marcelo Marotta, Graciela Ruiz e Ernesto Derezensky. Valeu Gustavo Kroitor pelo apoio internético!  

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Ódio e segregação

Por Gisela Goldwasser

“Alguns mais delicados preferiam morrer…”  Sua preservação talvez seja mais condição de cuidado que de luta.  O animal é brando com a natureza e com os outros da espécie,  no homem,  pode vigir uma forma silenciosa de brutalidade : a indiferença ante o sofrimento do outro.( Bertold Brecht)

“par délicatesse, j’ai perdu ma vie”.  É preciso ter cuidado com as cedências…  (Arthur Rimbaud)

 

Na investigação sobre o ódio, um dos itens do tema do Enapol 2019, “Ódio, cólera e indignação”, deparei-me com o artigo “Dizer não” de Graciela Brodsky.

O texto parte de um relato pessoal de fobia infantil, que a fazia parecer antipática com os outros. Graciela fala sobre as implicações do “dizer sim” e “dizer não” ao Outro. Nesse dizer, a tentativa constante de segregação para a diferenciação, mas no fundo apenas  uma  identificação a novos traços. A autora, nessa mistura entre segregação e identificação, chega  à única possibilidade de separação desse Outro, apenas pela singularidade do gozo: “Primeiro, em aparência, parece que a identificação confere um pertencimento ao Outro. Porém, se examinamos um pouco mais atentamente, descobrimos que a identificação a um traço me separa do Outro – o que rapidamente acaba reciclado em novas identificações com aqueles que compartilham tal traço. Para sair desse círculo vicioso é necessário então um terceiro passo no qual se descobre que o que me separa do Outro, o que me segrega do Outro ou o que segrega o Outro não são as identificações mas o gozo.  É o gozo o que faz com que o Outro seja Outro, radicalmente diferente de mim mesmo. Além disso, é o gozo o que faz com que o próprio sujeito  seja para si mesmo esse Outro do qual não quer saber nada.”

Sobre esse gozo que separa, o ódio no conceito de gozo- Lacan- o ódio que vem desse gozo que me ultrapassa; não é ódio do outro, é ódio disso em você que te ultrapassa. Disso em mim que eu localizo no Outro.