Judith Miller , nossa querida Judith , como disse Miquel Bassols, com sua firmeza e seu sorriso acolhedor fez a  Nova Rede Cereda ganhar força no Brasil, incentivando e acompanhando  com enorme interesse a formação de cada um dos núcleos. Ela estava sempre atenta à criação dos instrumentos de comunicação entre os núcleos do Brasil, da América e da Europa, os boletins, as jornadas, as conversações, que hoje temos a grande responsabilidade de sustentar. Trabalhar com Judith no CEREDA e no CIEN foi uma grande aprendizagem. Sua simplicidade era cativante. Sua disposição para o trabalho era um incentivo permanente. Obrigada , Judith!!! Levaremos adiante o trabalho nas redes do Campo Freudiano, que vc fundou e orientou durante todos esses anos. Uma nova geração já foi tocada e continuará esse seu legado.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros

Anúncios

 

Caros colegas e alunos,

É com grande tristeza que comunicamos o falecimento de Judith Miller, presidente do Campo Freudiano, fundação da qual são filiados os Institutos, entre os quais o Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro.

Judith Miller não só presidiu o Campo Freudiano, como, com o desejo decidido que foi a marca de sua presença entre nós, ajudou a sedimentar as bases desse Campo e a vivificá-lo sempre que necessário.

Sua aposta decisiva se fez presente na criação do ICP-RJ, contribuição sem a qual ele não se estabeleceria. Sua presença doce e firme nos orientou nesse caminho e sentiremos muito sua falta.

Enviamos à sua família nossos mais sinceros sentimentos.

A Diretoria do ICP-RJ

Paula Borsoi – Diretora Geral

Ronaldo Fabião – Diretor Tesoureiro

Glória Maron – Coordenação de Ensino

Tatiane Grova – Coordenação de Núcleos

Cristina Duba –  Coordenação de publicação

Comentário sobre as XXV Jornadas da EBP/ICP – Rio

Sobre as XXV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ, escolhi trazer como fui especialmente atravessada pelos trabalhos das Mesas Simultâneas e da Conversação Clínica. Entre tantos espaços de formação, as Jornadas oferecem a oportunidade do encontro com o trabalho de colegas compartilhando seu fazer na clínica.

As Mesas apresentaram uma diversidade quanto aos múltiplos espaços onde a psicanálise está presente. Alguns casos acompanhados na rede de saúde mental do Rio, da qual faço parte, apontaram impasses que muito se aproximam daqueles frequentemente vivenciados no trabalho entre muitos dos Centros de Atenção Psicossocial, impasses para os quais é preciso um manejo cuidadoso e singular, tanto junto ao paciente, quanto do lado da equipe. Diante do atual desmonte dos serviços de saúde mental, um momento como esse nos dá um respiro a mais para continuar sustentando a clínica e a psicanálise na cidade.

A Conversação confirmou a aposta a que Paula Borsoi se referiu na abertura, concernente ao trabalho de cada um nos Núcleos de pesquisa do ICP, espaço que por tantos anos acolhe e instiga o desejo de saber fazer com o real em jogo na própria formação do analista. Enquanto participante da discussão sobre o caso levado por Bruna Guaraná, foi interessante pensar a escrita de um caso clínico e percorrer com ela os muitos momentos dessa escrita, efeito daquilo que era recolhido no trabalho com os parceiros do Núcleo Práticas da Letra, até chegar à Conversação. Esta representou a chegada a uma conclusão deste trabalho, mas também incluiu um ponto de abertura, a partir do debate e das pontuações preciosas de Araceli Fuentes.

Que novas Jornadas cheguem, relançando vivamente os dados de nossas apostas!

Ana Cláudia Jordão 

Participante do Núcleo de Pesquisa Práticas da Letra

 

Comentário sobre as XXV Jornadas

Marina Morena Torres & Clara Reis

A escolha do tema “Loucuras e Amores na Psicanálise” deu um tom extremamente clínico para as jornadas desse ano. O interessante foi pensar de que maneira as loucuras e os amores estavam presentes em cada trabalho apresentado e, por se tratar de psicanálise, a singularidade de cada loucura e cada amor. Escolhemos aqui fazer um breve comentário sobre algo que saltou aos ouvidos ao longo de muitas das falas, plenárias, testemunho de passe: o feminino.

Maria Josefina Fuentes nos presenteou com seu belíssimo testemunho de passe, mostrando o difícil caminho de análise das mulheres marcado pela inexistência dA mulher, que força cada uma a inventar e nomear seu feminino.

Em uma mesa simultânea, Ana Lúcia Lutterbach lembrou que apesar da importância política do feminismo – movimento que se tornou organizado a partir do século XX dando um lugar diferente às mulheres que lutavam por direitos civis de igualdade  –  este não diz nada a respeito do feminino da psicanálise.

Araceli Fuentes afirmou, citando Lacan, em sua fala, que não há limites para as concessões que uma mulher faz a um homem, marcando a aproximação entre loucura e feminino como um laço ligado pelo amor. Lacan nos ajuda a pensar na mulher a partir do lado do “ser” e não na lógica do “ter” ou “não ter” – A diferença na posição feminina estaria então referida à forma de gozar das mulheres. E que forma seria essa?  As mulheres, assim como os homens, por estarem na linguagem, são submetidas a um limite em sua forma de gozar. No entanto, são também atravessadas por outro tipo de gozo, dessa vez, uma faceta opaca e desmedida. O amor aparece como algo feminino, e que em muitos casos leva a loucuras. Assim, a busca no amor poderia trazer à mulher uma experiência de gozo indizível e devastador. Como bem colocado por Araceli, no feminino há um extravio em que se perde a bússola fálica. Submersa no gozo indizível não há possibilidade de se construir uma identidade feminina e a mulher estaria dividida na experimentação desses dois gozos.

Lacan em Televisão diz que “o universal do que elas desejam é loucura: todas as mulheres são loucas” o que nos faz pensar que nessa estreita e intrigante ligação entre amor, loucura e feminino há sempre os mistérios singulares de cada mulher.

LOUCURAS E AMORES NA PSICANÁLISE

Adilson Valentim – Turma 2015

Apaixonado. Foi assim que me senti quanto a Jornada desse ano. Nos dois dias que estive por lá, o que pude ver e ouvir foi um encontro de pessoas absolutamente envolvidas com a Psicanálise. Cada um em seu momento distinto, dentro do qual localiza-se neste saber. Que tantas vezes se coloca como um não saber para que assim se mova. Com pontos de interrogação bastante presentes.

Ao chegar, deparei-me com jovens envolvidos com a venda de livros. De alguma forma, senti-me tocado com o engajamento. Imaginei a hora em que eles haviam chegado lá, para deixar tudo tão arrumado.  Já tinha café. Ao subir as escadas, encontro o auditório especialmente bonito. O mesmo auditório semanalmente frequentado, que de alguma forma já é de casa, estava arrumado e aconchegante. Pensei: isso é fruto do Desejo. Alguém desejou isso.

O que se fazia presente era uma mistura dos que já estão na Escola há mais tempo e dos que estão chegando. Mas, tudo se misturava. Era uma coisa só.

As mesas começaram a apresentar seus trabalhos. E fui percebendo algo que para mim é uma marca que muito aprecio na Escola. Que é a forma natural e tranquila com que não se levam a sério. Quando digo isso, não estou me referindo a outra coisa senão à naturalidade com que se colocam, muitas vezes, na posição de não saber. E começar uma apresentação sem saber onde ela terminará, apenas sabendo que o desejo os levou até ali e que o não saber fará o resto. O Testemunho de Passe de Maria Josefina Fuentes, apresentado na primeira noite, é um destaque a esse respeito.

Talvez o que faça tal postura acontecer seja o acolhimento generoso sempre presente na Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio.

No fim da primeira noite, eu já estava encantado, cativado e apaixonado. E ao descer as escadas me deparo com gente. Parecia que a festa programada para o dia seguinte já estava acontecendo. E fiquei. Naquele momento não tinha mais como não ir na festa de encerramento da Jornada, também de encerramento do ano. Era impossível não ir. Na manhã do dia seguinte foi a primeira coisa que fiz ao chegar, inscrevi-me para a festa.

Araceli Fuentes fez-se presente como convidada. E junto dela o tempo todo duas intérpretes absolutamente focadas, cada uma a seu modo, confirmaram a cena que já estava estabelecida no dia anterior.

A pose para a foto das equipes que trabalharam expressava alegria e satisfação. Que foto bonita!

No fim, foi deixar o Supereu em algum lugar,  não sei onde,  e ir à Festa.

Loucura Amor é na Psicanálise

Por Rodrigo Pedalini – Turma 2017

Perdoem-me pelo pobre mas inevitável jogo de significantes que intitula o texto que abaixo se incorpora.

Convidado a escrever em eco ao que vi e ouvi das XXV Jornadas Clínicas da Escola Brasileira de Psicanálise Seção Rio e do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro (10 e 11 de novembro de 2017), estou aqui olhando para o folder de programação da Jornada, para seu logotipo e pensando que a palavra Amor,escrita entre Loucura e Psicanálise, provocou em mim algumas elucubrações. Primeiro que, assim como inscrito, o amor foi o ponto central da Jornada. Eram sorrisos, agradecimentos, elogios, pontuações, declarações e demonstrações diversas de amor. Do amor que impulsionou o trabalho, a produção e a perseverança de cada um dos participantes até então. Era como se todo o amor acumulado, motor do trabalho realizado durante meses, estivesse sendo declarado apaixonado nesses dois dias. Recebemos até mesmo um generoso presente, com o relato do que foi passado da Analista de Escola Maria Josefina Fuentes. Foi, no entanto, quando falou Pepita que nos ficou claro que o que se passava naquele momento era, mais que um relato, uma declaração de amor à psicanálise e à Escola.

“Traduttore — Traditore!”

Também e além, ocorre-me que estar com Lacan é estar no campo de uma outra linguagem. Participar como ouvinte das referidas Jornadas Clinicas foi, em dado momento e talvez com algum exagero figurativo, como participar do Oitavo Congresso da Academia Sueca de Letras, sem tradução simultânea. Foi dar-me conta que “aprender” Lacan (e aqui uso esse significante com a absoluta certeza de sua insuficiência no que se refere ao ensino de Lacan) é aprender uma outra língua e, ainda que não queira entrar aqui no campo teórico do Outro com sua linguagem, é dar-me conta de que não há tradução capaz de traduzir Lacan (tivemos até mesmo um momento de tradução de espanhol para espanhol! – os ouvidos atentos puderam perceber).

Mas… quem sabe o amor. O Amor é capaz de traduzir (e trair) a Loucura de Lacan em Psicanálise. Aí se faz transmissão.

Nota: Para quem não notou, Freud esteve lá e quis deixar presentes também: Os chistes – um de seus exemplos marca a segunda parte desse texto- estavam presentes em todas as mesas e eixos, e posso dizer que pude rir bastante (mesmo antes de beber). O ato falho Barcelona-Madri estava ótimo! O sonho, talvez o tenha acabado de relatar.

Ecos da Jornada

Por Leonardo Lacerda – Turma 2017

A palavra arte é a tradução latina para a palavra techné. Τεχνη em grego, ou simplesmente techné, significava para os gregos fazer aparecer, ποιησις, poíesis, o que faz com que algo passe do não ser para o ser, ou seja, remete à noção de desvelamento, revelação, produção da “verdade”, e dá origem a palavra poesia. Assim, como não pensar na dimensão poética do trabalho do analista, tanto na sua atuação prática como na teórica? O sintagma usual “práxis lacaniana”, nesse sentido, remeteria a um modo de  agir do analista que aponta para uma ação simplificada, que pouco tem a ver com o que nos foi apresentado nesses dois dias da XXV Jornada intitulada “Loucuras e amores na psicanálise”. O que vimos, nesses dois dias de intensos trabalhos, foi a elevação de dois significantes tão banais, cimentados a uma semântica pelo seu uso ordinário, a uma outra condição, um outro patamar. Como do mármore bruto Michelangelo produziu Davi, também dos termos “amor” e “loucura” pode-se extrair, a partir do trabalho poético dos conferentes e dos audientes e das ferramentas teóricas que a psicanálise de orientação lacaniana nos fornece, a não-toda potência desses significantes. Portanto, o trabalho sobre esses dois termos, por tudo que produziu nesses dois dias de jornada, não pode ser pensado senão como um trabalho artístico, poético, no seu sentido mais originário. E se nos obrigamos a escrever aqui o que fica para nós, do acontecimento que foi a Jornada, a resposta não poderia ser diferente da seguinte: a psicanálise é, sem dúvida, uma potência onde não se vislumbra seu esgotamento e a relevância desse dispositivo para nós, habitados de uma forma ou de outra pela linguagem, lançados no incontornável mal-estar produzido pela tensão entre a loucura e o amor, afirma-se na sua capacidade desmedida de dar respostas (e, sim, com estatuto poético) e amparo, aos sofrimentos  que nos acometem nesses tempos tão difíceis.