Núcleo de Pesquisa Clínica e Política do Ato Sobre a transmissão da psicanálise em tempos de isolamento

André Spinillo

Assim que o vírus chega aqui, na nossa realidade, ultrapassando as fronteiras que o mantinha do outro lado do mundo, somos obrigados a restringir as fronteiras de nossos mundos particulares. Como cidadãos e seres humanos, a ordem é de nos isolarmos, para protegermos a nós e aos outros, nossos semelhantes.
No lugar de psicanalistas, nos resta um certo paradoxo.
Nossa prática sempre teve o encontro como condição para acontecer. E como a psicanálise acontece também fora da clínica propriamente dita, os lugares (institucionais e físicos) onde nossa transmissão se faz também ficam comprometidos. No entanto, o que vem se afirmando é que o comprometimento desses espaços e do encontro presencial não é o suficiente para que todo nosso trabalho seja interrompido. O que parece é que a existência dessa barreira impõe a nós duas opções: a de abandonar o trabalho frente a ela e esperar o dia em que ela irá se dissolver ou a opção de encontrar alternativas para seguir adiante, quase como driblando a aparente impossibilidade. Essa segunda opção, evidentemente, é aquela que adotamos.
Nosso núcleo de pesquisa teve seu primeiro encontro do ano no dia 13 de março, exatamente no mesmo dia em que o governador do nosso estado decreta a suspensão das atividades escolares e de tantos outros eventos, o que se configurou como uma das primeiras medidas oficiais no combate à disseminação do Coronavírus. Até então, foi nosso único encontro presencial do ano, sem sabermos exatamente quando haverá um novo.
Tomamos, então, como medida, mantermos o cronograma de estudos já estabelecido, preservando a data e horário de nossas reuniões, bem como nossas diretrizes de estudo, os textos que selecionamos, os casos que escolhemos trabalhar etc. Porém, o local do encontro não seria mais na sede da EBP, mas em alguma plataforma virtual de nossa escolha.
Logo surgem alguns desafios: o de escolher uma plataforma que seria mais apropriada, em primeiro lugar, e, em seguida, o desafio de entender o seu funcionamento e tentar tirar dela o melhor proveito. Apesar das dificuldades, elas são logo superadas e nosso primeiro encontro em uma nova modalidade acontece.
Os momentos de fala de cada um têm de ser mais comedidos e calculados para tirarmos o máximo proveito das nossas conexões. A conexão, que às vezes falha, não é um grande impedimento para que nos conectemos, de fato, uns com os outros, através da transferência que existe pelo nosso trabalho. Por assim dizer, a conexão promovida pela transferência suplementa a conexão de nossas redes de internet.
Há barreiras a serem superadas, mas há também portas que se abrem. O grupo parece estar aumentando de tamanho, incluindo participantes que antes não poderiam estar conosco por conta da distância. Nem só de impossibilidades e dificuldades se constitui a atual situação.
Por fim, vale dizer que a psicanálise, de alguma maneira, sempre se tratou precisamente de quebrar muitas barreiras. Se o que era inconsciente pode advir e se revelar e se constituir como um novo saber, é por termos a fala como principal instrumento para tal.
Portanto, os psicanalistas já devem saber, há muito tempo, que é sustentando a possibilidade de haver onde falar é que nossa clínica e nossa transmissão podem acontecer, seja essa fala presencial ou virtual.