Como experimentei o XXII Encontro do Campo Freudiano

Por Sonia Carneiro Leão

Sou aluna do ICP-RJ, da turma de 2017. Tenho tentado acompanhar o ensino de Lacan, não sem dificuldades, como se olhasse a Via Láctea, tão bonita, misteriosa e distante, aqui da Terra. Mas a necessidade permanente de aprimorar as minhas lentes me diz sempre que, quem sabe, um dia, conseguirei chegar a ver melhor uma tal estrela, ou um buraco negro. Tudo muito fascinante. O desejo de ver, de conhecer, de descobrir, me guiando.
Assim sendo, fui participar do XXII Encontro do Campo Freudiano num majestoso hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Excitada, sonhando em me aproximar um pouco mais da minha querida Via.
O que encontrei?
Um anfiteatro enorme. Cheio. Silencioso. Solene. Um pólo convergente para onde afluíram pessoas esperando os dizeres, as falas, os saberes. Um núcleo etéreo, volátil, em torno das revelações por vir. O olhar fixo no palco, onde a palavra circulava.
E a sempre presente sensação de estar olhando as estrelas longínquas, a olho nu. Vozes que nos chegavam de um espaço para além.
Aliás, os significantes mais pronunciados foram exatamente esses: para além, mais além. A visão do infinito se nos abrindo a cada instante, sem bordas. Uma experiência xamânica.
O que mais me ficou registrado?
Há Sintoma no Real.
O sintoma é o que é, assim como as estrelas.
As insígnias.
O deserto do gozo.
O saber fazer com o Um.
A psicanálise, experiência da palavra.
Lidar com o intraduzível.
Expressar o intraduzível.
Escrever sobre o escrever.
A face assemântica da análise.
O encanto se cumpriu. Retornamos, desses três dias de embriaguez, siderados por um saber não-todo, que não se fecha. Mas nos ficaram vestígios, vestígios de um impossível, daquilo que nos abre eternamente para um mais além, o mais além do falo, o mais além do ser.

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Carta Aberta da Escola Brasileira de Psicanálise em defesa da Democracia

Estamos a algumas semanas do segundo turno de uma eleição que incidirá sobre os alicerces da nossa República e mais radicalmente, implicará em uma escolha entre o ódio ou a democracia, entre o espírito das leis ou uma violência sem freios. No vácuo de uma crise da política representativa e de uma perda de confiança nas instituições, uma parte significativa da população brasileira dá vazão a um discurso de ódio que passa a proliferar na cena social, trazendo consigo expressões típicas do fascismo, tais como a intimidação, o fanatismo e o terror. A instauração deste discurso em toda a sua virulência no laço social e no espaço público, implicam num retrocesso sem precedentes em relação aos avanços que o regime democrático ensejou em suas três últimas décadas no Brasil. Este veio autoritário e dogmático que desponta na subjetividade da época requer, urgentemente, leitura e interpretação.
A democracia assume uma relação direta com a vida, pois, como a psicanálise nos ensina, é atravessada pelos acontecimentos contingentes que marcam a história política de um povo. Cabe a nós, psicanalistas, continuarmos a dar lugar às palavras e aos atos que honram nossos laços com a democracia e com as liberdades públicas. Estes são os propulsores do desejo que esta carta aberta subscreve, como consequência da fala e da presença dos numerosos membros da Escola Brasileira de Psicanálise que participaram da Conversação “Psicanálise e democracia”, promovida pela Movida Zadig-Brasil/ “Doces e Bárbaros”. Uma manifestação enquanto Escola, portanto, só poderia advir da prática da conversação como ato político, e como consequência de uma elaboração provocada, neste momento de crise. Assumir a defesa da democracia neste difícil e grave momento da história de nosso país, exige instaurar uma base permanente de mobilização e diálogo com os núcleos esclarecidos da sociedade civil, por meio de nossa Rede de Política Lacaniana, La Movida Zadig-Brasil. Esperamos que nos próximos dias os movimentos e as forças políticas que se abrigam no mais autêntico espírito republicano, saibam proteger e defender a democracia. A Escola Brasileira de Psicanálise reafirma a sua veemente defesa destes valores fundamentais, e seu repúdio aos discursos de ódio, que promovem a ruína da sociedade e da cultura, e cujos resultados, a história nos ensina, são um empuxo rumo à catástrofe, ao pior.

Jésus Santiago (Responsável pela Movida Zadig-Brasil/ “Doces Bárbaros”)
Lucíola Freitas de Macêdo (Presidente da EBP)
Luiz Fernando Carrijo da Cunha (Diretor da EBP)

13.10.2018.